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O VERÃO E A MULHER LIVRE |
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A turma está parada no boteco da vida. Sol plenitude. 40 graus. Verão lindo. Elas três, de biquíni, nuas, praticamente, aproximam-se para um refrigerante, um cigarro, essas coisas. Na macharia baixa um silêncio no fundo assustado, temeroso. O vozerio alegre some por segundos. Homem é óbvio; há olhares cúpidos, aí uma piada, um riso abafado. Quando elas se afastam, encabuladas, a turma já está aos gritos tipo "fala gostosa". Em síntese: a nudez e a liberdade agridem, ameaçam, aturdem. No lado negativo, é o reacionarismo do comportamento masculino. No lado positivo, zoológico, é o berro reprodutor da espécie mesclando o impulso e a agressão do pré-amor, típica de aves e mamíferos (aos peixes e vegetais não conseguimos ouvir). Diminuído o anátema, a mulher pôde, aos poucos, garantir a sua posição de igualdade. "Assume-se", como está em moda dizer. Aí coloca-se, porém, a dificuldade. O homem não está preparado, para compreender, aceitar e entrar em relação com a liberdade tão duramente conquistada pela mulher, nem se preparando para a nova mulher surgente dos escombros da esmagada, reprimida e dominada de antes. Vivemos tempo ao mesmo tempo terríveis e belos, nos quais o amor começa a ser um exercício de liberdade em lugar de um exercício de poder. E como sempre que há exercício de liberdade - no amor ou na política - o poder se torna violento, os tempos são terríveis e belos. Terríveis pela violência, belos pela aurora, pelo renascer da utopia. A sensualidade refluíra, pois, para a repressão pura e simples ou para formas figuradas, simbólicas ou alegóricas. Não era aceita como um dado do ser humano a se ligar com os outros: a espiritualidade, a inteligência, a educação, etc. Era o elemento perigoso; o demoníaco. A moda pode ser sensual, a mulher não. A dança idem, a mulher não. Nós, pobres seres humanos, somos servos dos nossos pensamentos, escravos das próprias idéias, serviçais da estratificada visão do mundo. E como são os nossos pensamentos que nos dominam e não nós a eles, surge o fadário, a pena, a "ignorância" em que vivemos afundados dentro da mais evoluída ciência, o mais amplo conhecimento e a mais vasta cultura: somos servos dos nossos pensamentos, das nossas crenças e das nossas convicções. Por isso, eles nos dominam, levando-nos a atos negadores da vida. Por isso tanta guerra e conflito. Não se trata de deixar de tê-los (pensamentos, crenças e convicções) para deles se libertar. A proposta é outra e revolucionária: trata-se de ser senhor deles, de dominá-los com o nosso ser. De colocá-los a nosso serviço e não nós a serviço deles. Ninguém pode (ou deve) abandonar a sua visão de mundo, as suas convicções. Deve, sim, dominá-las. |
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Artur da Távola é senador e escritor - Texto Publicado com autorização do autor |
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