O NEGRO DA PADARIA

Uma boa parte das pessoas nascem, crescem e morrem da mesma forma que chegam ao mundo. Não arriscam um único vôo diferente daqueles que os seus pais lhes ensinaram, passam pela vida como se fossem verdadeiros assanhaços. Mas graças a Deus alguns não contentam com o fato de não terem nascido com asas. Esses voam como se fossem águias.

Perto da minha casa tem uma padaria diferente das outras e o que faz essa diferença não é o pão ou mesmo as guloseimas que são oferecidas que, diga-se de passagem, são de dar água na boca de qualquer um que por lá arrisca passar, mas sim um cidadão de cor negra que atende pelo apelido de Black. Ele está ali há anos e o que é mais engraçado; nunca ouvi falar o seu nome.

O apelido penso... surgiu porque ele fala corretamente o inglês. Dentro da padaria ele ocupa um espaço de trabalho inferior a três metros quadrados, fica do lado de dentro de um balcão de queijos e presuntos. Está sempre com as mesmas feições, não importa se o freguês é um jovem ou um ancião. Conhece todas as pessoas pelo nome e parentesco. Tece elogios refinados às mães que, lá, vão com suas filhas. Um dia desses ouvi quando ele disse:

__ Nossa! Como você está parecida com a sua filha. Consegue agradar a todos com artifícios bem simples. Com uma fatia de presunto ele diz:

__ Esse é bem gostoso, experimenta! Ou ainda.

__ Olha! Acabou de chegar. Várias vezes pensei falar para ele montar o seu próprio negócio; uma quitanda, depois uma padaria, depois uma confeitaria e depois, e depois... uma rede de mercados, quem sabe? Mas quando penso que essas coisas vão tirar dele a alegria de viver, prefiro ficar calado. Ali, naquele curto espaço ele construiu o seu mundo, ali ele voa como Ícaro para os mais longínquos recantos da alma humana.

Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor
 

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