O PENSADOR

 

Pensar não significa somente ser sensível ou inteligente, mas mergulhar de cabeça para dentro de nós mesmos e, talvez, esse adentar-se seja o que há de mais lúcido e ao mesmo tempo, assustador. Para certos indivíduos essa ousadia pode custar-lhes vários aborrecimentos, principalmente para aqueles que estão passando pela vida como se esta fosse a única estação. Sempre achei que as pessoas inteligentes são aquelas que trabalham em benefício da comunidade e não aquelas que constroem o benefício próprio. Da mesma forma, o sensível é aquele que enxerga além dos seus próprios olhos.

Às vezes chego a imaginar que algumas pessoas não pensam. Essa lógica parece absurda, mas não é. Raramente ando de ônibus, mas ontem, quando estava na parada, dois cidadãos conversavam animadamente bem na minha frente. Eram duas pessoas de aparência sofrida, mas não demonstravam qualquer tipo de revolta ou ressentimento. Não sei por que, o assunto despertou em mim uma certa curiosidade. Os dois me pareceram ser duas pessoas que sempre se encontram ali. A parte da conversa que mais me agradou foi quando um perguntou para o outro:

__ Você pensa? Essa pergunta nunca passou pela minha cabeça, jamais imaginei que pudesse ser formulada, ainda mais nos dias de hoje. A surpresa foi maior quando o outro respondeu:

__ Não, não penso.

__ Como não?

__ Bem, eu levanto, tomo café, depois tiro o leite das vacas paridas e mais tarde vou dormir, essas coisas faço todos os dias no mesmo horário e da mesma forma. __ E você acredita que eu penso? __ Pra dizer a verdade... não. Nesse momento o ônibus que esperávamos chegou. Os dois entraram e se sentaram na primeira poltrona, como a segunda estava ocupada, fiquei de pé ao lado deles prestando a maior atenção no diálogo que era travado entre ambos. __ Engraçado... de uns dias para cá eu comecei a pensar. Tem tanta coisa na minha cabeça que às vezes acho que vou ficar maluco.

__ E por que você não tira essas maluquices da cabeça?

__ Até que tento, mas não estou conseguindo. Quando não tinha nada, eu também não pensava, mas agora que tenho uma casa alugada e um carro velho, não consigo parar de pensar.

__ Por que você não vende o carro?

__ Já me acostumei com ele. Agora não consigo andar a pé e, o pior é que ele está sempre na oficina; um dia é a bateria no outro é o freio. Hoje, para a minha surpresa, foi a porcaria da partida. Para completar a minha agonia, a droga da oficina não tem garagem; um dia desses tive que dormir dentro do carro. Disseram que por lá tem muito ladrão.

__ Desse jeito você vai ficar mesmo doido!

__ Outra droga é o morador da minha casa, está sempre com o aluguel atrasado. Vive reclamando do telhado e dos vizinhos que fazem barulho durante a noite.

A partir daquele momento não ouvi mais a conversa e nem era preciso. Fiquei estarrecido com o que acabara de ouvir. Eles desceram e tomaram outro rumo. Eu, já havia perdido a minha parada, tive que pegar um outro ônibus para voltar. Aquela conversa maluca para mim, me fez pensar o quanto é pequeno o nosso universo. Ainda assim, constroem barreiras enormes entre nós, às vezes bem maiores que as muralhas da China. Ah, ainda tem gente que acredita que o muro de Berlin caiu. Ele nunca esteve tão sólido ou tão firme como agora. As desigualdades nunca foram tão visíveis, não é à toa que o nosso país está entre os de maior concentração de renda do planeta, só perdemos para a África. A "sorte" dos nossos governantes é que a maioria da nossa população não parou para pensar. São como aqueles dois que encontrei na parada de ônibus.

  Pedro cardoso é cronista   -  Texto Publicado com autorização de autor

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